No início dos anos 2000 a publicação do livro “O Ócio Criativo”, do sociólogo italiano Domenico de Masi provocou frisson no meio acadêmico e empresarial.

Entusiastas e curiosos se alternavam em alegações futuristas sobre a possibilidade de o homem usufruir mais tempo livre em sua vida, dedicando-a ao trabalho, ao estudo e ao divertimento, como sugeria De Masi.

Lembro-me de algumas passagens desse livro, até um tanto polêmicas e que para mim foram particularmente impactantes no que diz respeito ao conflito entre a burocracia e a criatividade:

“A luta entre criativos e burocratas se tornará mais acirrada. O mesmo acontecerá no plano psicológico entre a parte criativa e a parte burocrática que coexistem dentro de cada um de nós”.

“Os burocratas têm medo da inovação, os criativos têm medo do imobilismo. As duas posições serão cada vez mais inconciliáveis. Mas vencerão os criativos, porque a sociedade pós-industrial se alimenta de invenções, não tem outra saída, premia a iniciativa e joga para fora do mercado o imobilismo”.

E as afirmações contundentes de De Masi não paravam por aí. O segundo capítulo do livro carrega o sugestivo título de “O Imbecil Especializado”, complementado pelo comentário no décimo terceiro capítulo o qual registra que “…o engenheiro Taylor e o engenheiro Ford tinham como dependentes diretos esquadrões de operários analfabetos”. Por mais dura que seja essa afirmativa, não há ninguém que não pare para pensar na realidade – incômoda realidade…- que ela comunica à sociedade moderna, em particular quando De Masi explica que a maior parte do trabalho humano seria feito pelas máquinas cada vez mais inteligentes.

Hoje em dia esse conflito evidencia-se a olho nu. Saiu da esfera das discussões filosóficas para tomar o ambiente das empresas, das universidades, das famílias e das comunidades, de forma prática.

É imperioso repensar nossas tarefas de hoje em diante e o quanto a Tecnologia poderá ser utilizada a nosso favor de forma ética e sustentável, não obstante o temor que ainda emerge dos ambientes especialistas.

Passados quase vinte anos do livro de Domenico De Masi, experimentamos o advento do ócio criativo como um espaço aberto ao homem para fazer o que há de mais importante em sua Vida: a realização do seu propósito de existência, da sua missão particular de tornar a Vida mais produtiva, bela, simples e sustentável para si mesmo e para a posteridade.

Carlos Medeiros
Coach, Consultor e fundador da ABRACEM