Um guia para você se dar bem e não ser enganado pelos dez principais mitos do empreendedorismo

O empreendedor é como um homem que monta num leão. As pessoas pensam: esse cara é corajoso! Só que ele está pensando: como é que fui subir num leão, e como é que eu não deixo ele me comer?

A cena ilustra como o empreendedorismo ganhou status de fantasia número 1 no espírito contemporâneo. Quantas vezes você não leu a mesma storytelling em que certa figura heroica, depois de uma jornada espiritual, tem um genial insight, vira a própria mesa e embarca em uma viagem pessoal em busca de seu sonho, até realizá-lo e nadar em uma piscina de moedas de ouro?

À parte os exemplos concretos, muitos pontos desse clichê são mera fantasia — e o prejuízo emocional advindo de uma decisão fundada em uma fantasia pode ser gigantesco. Combater esses mitos é o primeiro passo para compreender que nem sempre a estrada do empreendedorismo é pintada de cor-de-rosa.

A revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios conversou com dúzias de empreendedores, investidores e estudiosos de economia criativa para elencar dez mitos sobre o empreendedorismo que podem agir como verdadeiras pedras no meio do caminho.

1. Meu empreendedor, meu herói

O primeiro mito é justamente o que coloca uma capa ao redor do pescoço (e uma cueca em cima da calça?) do empreendedor. “Antes era o ‘herói visionário’: o cara com uma ideia genial e uma capacidade além do alcance de motivar pessoas e criar empresas disruptivas. Agora vejo que estamos migrando para um ‘herói workaholic mindful’”, afirma Igor Tasic, fundador da Startup Europe Week, movimento de fomento ao ecossistema de startups que já impactou 300 cidades em 40 países.

“É o cara que trabalha duríssimo todos os dias, cria tudo junto com a equipe, mas também medita e mostra uma vida ‘equilibrada’ no Instagram”, diz Tasic. O mito do herói perfeito está tão institucionalizado que dá a sensação de que existem características genéticas para determinar quem será um empreendedor. “Na verdade, empreender requer um aprendizado contínuo: é uma habilidade que pode se desenvolver como qualquer outra”, afirma Tasic.

2. O dono do negócio não pode errar

“Meu maior defeito é o perfeccionismo.” Quem nunca leu uma entrevista em que o intrépido dono de negócios trata uma fraqueza como qualidade? Ainda nessa linha do empreendedor como ser humano dotado de atributos perfeitos, temos um outro mito: o de que ele jamais pode se mostrar frágil. “A ideia de que todo líder é dotado de habilidades extraordinárias e que sempre terá as respostas certas gera uma pressão descomunal, fazendo com que tenha medo de hesitar ou demonstrar dúvidas”, diz Camilla Junqueira, diretora da Endeavor. É uma falácia acreditar em empreendedores infalíveis. “Falhou uma vez? Loser!”, dizem alguns manuais de autoajuda (que só ajudam os seus próprios autores). O erro muitas vezes é o dínamo que projeta um evento bem-sucedido. “Na Endeavor, a gente costuma dizer que situações difíceis fazem empreendedores mais fortes”, diz Camilla. “Ao cometer grandes erros, você está mais perto de acertar na próxima. Os aprendizados de uma primeira falência servem como base para a nova tentativa.”

3. Todo empreendedor é otimista

Cabe aqui dar voz a outra fantasia: a de que todo empreendedor é um sujeito que esbanja otimismo — mais sorridente do que vendedor de mate com limão em Copacabana no verão. “O pioneiro empreendedor é um realista”, afirma Jacques Marcovitch, professor emérito da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo e autor da trilogia Pioneiros e Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil (Edusp). “Ele leva em conta os cenários otimistas e pessimistas, além de suas variantes. Analisa riscos, enfrenta adversidades, supera desafios e encontra novos caminhos. Ele é o principal responsável por seu destino.

No labirinto da vida, combinando intuição e razão, o pioneiro brasileiro dos séculos 19 e 20 sobreviveu à falta de internet, de computadores, de celulares e de muitas outras ferramentas que, se faltassem agora, fariam qualquer empresário perder momentaneamente o rumo”, diz o professor.

Se o empreendedor, ao contrário, montado no otimismo, achar que no final tudo vai dar certo, corre o risco de deixar um monte de coisas malfeitas pelo caminho. E aí pode acabar escutando a demolidora frase: “Desista! Você não serve para empreender!”. Nem toda a energia para abrir um negócio vem do otimismo. Às vezes, um “não” ou um tropeço pode acabar dando uma motivação a mais para o empreendedor, que se torna um pessimista positivo — aquele que se planeja melhor, executa com mais cuidado, revisa três vezes. Ouvir negativas faz parte do empreendedorismo. Portanto, quem cultiva a certeza íntima de que tudo que puder dar errado vai dar errado pode se tornar mais detalhista e meticuloso — o que tende a gerar um resultado mais bem-acabado.

4.Quem abre uma empresa fica rico

Afinal, empreender para quê? Ora, para ficar rico, lógico. Nada disso — se for dinheiro o que o move, esqueça. “O maior absurdo que vi nesses livros de autoajuda empresarial foi a chamada ‘Fique milionário empreendendo’”, afirma Cassio Spina, fundador da Anjos do Brasil. “Empreender só pela motivação de ganhar dinheiro levará certamente ao fracasso. Retorno financeiro só vem a longo prazo, depois de muita persistência. E sob o risco permanente de perder tudo que tem. Quem pensar só no dinheiro vai desistir no meio do caminho e nunca será um empreendedor”, afirma. Camilla Junqueira concorda. “Donos de negócios de alto impacto acreditam que podem solucionar um problema e mudar a sociedade para melhor. O dinheiro é secundário frente ao desafio de construir algo maior. Muitos passam anos até começarem de fato a lucrar”, diz.

5. Sem (muito) dinheiro, não dá pra crescer

A necessidade de ter um grande capital para investir ou para fazer o negócio crescer não pode ser um entrave para o empreendedor. Maure Pessanha, diretora da organização de fomento a negócios de impacto Artemisia, lembra que o dinheiro é importante, desde que na hora certa e do jeito certo. “A maioria dos empreendedores começa com recursos próprios, de familiares ou amigos”, afirma. O empreendedor precisa dos recursos para “prototipar” a ideia, validar seu produto e mercado; também tem de aprender a negociar com investidores — anjo, fundos etc.

No entanto, Maure adverte que, às vezes, ter muito dinheiro pode levar o empreendedor a escalar o negócio muito antes da hora e não focar no momento presente… o que pode ser um grande problema depois. “Existem casos em que a empresa está crescendo de forma acelerada, mas o empreendedor não reuniu o capital necessário para atender a demanda”, diz Camilla Junqueira, da Endeavor. Ela lembra que a falta de recursos financeiros é apontada como um dos três principais desafios dos empreendedores brasileiros. Porém, há dinheiro no mercado para investir em negócios. “O que ocorre é que nem sempre o acesso a esses recursos é simples, e alguns segmentos não são contemplados, como as médias empresas. O problema não é a falta de dinheiro, mas como os empreendedores o acessam”, afirma.

6. Adeus, chefe

Quem nunca sentiu vontade de chutar aquele chefe, que atire a primeira cadeira. Talvez por fulanizar a ideia da virada de mesa, o sonho de uma vida sem ninguém te dizendo o que fazer está no centro do algodão-doce do empreendedorismo. Ledo engano: é possível que uma hora você acabe tendo vontade de chutar a si mesmo. “Na primeira fase da cobertura editorial do empreendedorismo, falava-se muito na temática ‘busque fazer o que ama’”, diz Igor Tasic. “Isso vendeu, e ainda vende muito, porque as pessoas estão sempre muito insatisfeitas nos seus cubículos e se sentem injustiçadas no mundo corporativo. Então a saída ‘fácil’ é empreender. O problema é que a maioria dos que empreendem por esse motivo descobrem rapidamente que a coisa é mais complicada e vai levar bem mais tempo do que se imagina”, afirma.

Ao lado da fantasia romântica de demitir o próprio chefe, está outro sonho dourado: o empreendedor vai ter mais tempo para fazer suas próprias coisas, e sua vida privada vai ganhar mais espaço. Tolinho. “A ideia de que o empreendedor trabalha menos e tem mais liberdade é um dos maiores mitos da área”, afirma Maure Pessanha. “As demandas são diferentes, mas a responsabilidade é muito maior na maioria dos casos. É comum o negócio virar o chefe do empreendedor — seja na figura do investidor, seja na pessoa do cliente”, diz.

7. Quem chega antes se dá melhor

Nesse capítulo, vamos nos render aos ensinamentos de um dos grandes empreendedores de nosso tempo: Steve Jobs. Como todos sabem, o criador da Apple não criou nada — nem mesmo o nome de sua empresa (inspirado na gravadora dos Beatles, que faliu). Ao lado de seu parceiro, o genial Steve Wozniak, Jobs intuiu que a convergência de uma série de inovações semeadas por diferentes empresas — o mouse, a interface gráfica, os ícones etc —, faria sucesso caso fosse bem “empacotada”. A supremacia do sistema operacional IOS e de vários produtos vinculados à matriz do velho Macintosh demonstra claramente que, mais do que ter uma boa ideia, o importante é saber como entregá-la.

“Ser o ‘primeiro’ a lançar um produto ou serviço é uma vantagem competitiva?”, pergunta Cassio Spina. “A resposta é não. Na realidade, o custo do pioneirismo é extremamente elevado: normalmente os chamados ‘fast-followers’ é que são os vitoriosos. Basta lembrar que o iPod veio depois dos MP3 players.” Maure Pessanha concorda. “Muitas pessoas acham que uma boa ideia vale muito. Na verdade, de boas ideias o mundo está cheio! Uma ideia boa pode ser importante — mas a diferença é, sem dúvida, a boa execução. E isso depende de fatores como liderança, equipe, talento e planejamento.”

8. É preciso escalar

“Se não crescer rápido, não vira”, afirmam certos gurus. A escala do negócio — a velocidade do crescimento — é o novo graal do empreendedorismo. Imortalizada pelo best-seller Organização Exponencial, de Salim Ismail, diretor executivo da Singularity University, a expressão “crescimento exponencial” (acelerado e constante) virou objetivo de muitos startupeiros.

Mas, na verdade, a escala é só uma das formas de você criar e manter um negócio que faça bem para o mundo — não a única. Existem empresas que investem tanto no crescimento que esquecem de fazer a lição de casa. É um erro clássico: antes de provar o modelo de negócio, o empreendedor se muda para um escritório maior, compra outras empresas, expande para outros países. E aí, tarde demais, percebe que não havia demanda suficiente. O prejuízo, nesse caso, pode ser enorme.

9. Empreender traz felicidade

Em quase toda área de interesse, há uma camada de oportunistas. Gente que fala do que não sabe, que oferece receitas de bolo para resolver angústias da alma, que vende sopa rala como se fosse creme espesso. Esse tipo de gente explora as fragilidades do público de modo a eternizar essas fragilidades — e a demanda para os serviços que prestam. Mas isso existe na religião, na medicina, no Direito. A pergunta que devemos fazer é por que existe tanta demanda para esse tipo de engodo, especialmente no empreendedorismo. Aparentemente, há muitos donos de negócios em busca de soluções fáceis ou pílulas de felicidade.

“Infelizmente se criou uma visão idílica e utópica sobre o ato de empreender”, diz Igor Tasic. “E fala-se muito pouco sobre a relação entre depressão e empreendedorismo. Conheço casos próximos de pessoas que passaram por dificuldades psicológicas graves ao enfrentar a realidade de empreender, a realidade do desconhecido, a realidade da negação etc. Não são incomuns problemas de ordem familiar, abuso de fármacos e álcool. Mas isso é pouco falado porque rompe o ‘modelo Zuckerberg de sucesso’.”

10. Especialistas sabem tudo

Quem chegou até esta altura deve estar pensando que o autor deste texto sabe tudo sobre empreendedorismo. Nada disso: o jornalismo vive de fazer perguntas. E gurus de negócios vivem de dar respostas. Nem sempre sabem do que estão falando, porém. É bom desconfiar dos especialistas, sempre. Com o hype de empreendedorismo, têm surgido empreendedores e investidores que nunca fizeram nada significativo, mas posam de experts. Por aqui, esse problema é maior. No Vale do Silício ou na China, os especialistas criaram, então podem falar. Mas no Brasil, com raras exceções, ninguém inventou ainda nada em tecnologia, então é preciso desconfiar muito.

Outro exemplo de falso especialista são aqueles executivos bem-sucedidos, acostumados a pilotar grandes corporações, que resolvem dar dicas para empreendedores. Todas erradas. Executivos adoram métricas de eficiência e controle de custos, e seguem à risca planos de negócios. Só que o início de uma empresa de tecnologia é todo voltado para a experimentação. Se você não testar, arriscar e até desperdiçar um pouco, a empresa não vai criar a cultura de inovação. “Só leio livros escritos por donos de negócios”, diz Maure Pessanha. Ela acredita que há muita ilusão associada ao ato de empreender. “Não se trata de uma conta exata; por isso, é importante estudar, aprimorar técnicas. Mas cada empreendedor precisa achar o caminho, conversando com especialistas na área, mentores, mas principalmente vivendo a prática, conversando com clientes, saindo à rua.”

Uma crença associada à dos especialistas é aquela que aponta o empreendedor como dono da verdade. Daniel Chalfon, sócio na Astella Investimentos, empresa de venture capital, contrapõe. “Dá para ter experiência acumulada, dá para ter mil estatísticas na cabeça, mas mesmo assim não dá para afirmar que a gente sabe o que vai acontecer com o negócio. O destino é sempre improvável, mas o conhecimento e a experiência ajudam e encurtam os caminhos. É como um GPS: te ajuda a chegar lá, mas você sempre pode descobrir um atalho novo sozinho.” Mais um mito para tirar da frente. Sem eles, a estrada para a criação do seu próprio empreendimento fica bem mais livre.